Feto abandonado choca moradores de Bagamoio


Mais um nado-morto encontrado no lixo no mesmo local um ano depois 

Num cenário que revolta e entristece, os moradores do bairro de Bagamoio, na cidade de Maputo, acordaram nesta segunda-feira, 14 de Julho de 2025, com a descoberta de um feto abandonado no contentor de lixo localizado na rua da Rádio.

Tudo aconteceu quando Jorge Tembe, trabalhador responsável pela recolha de resíduos sólidos na zona, se preparava para mais um dia de trabalho. Como de costume, ele passou pela loja de uma cliente, localizada na EN1, na paragem Bagamoio, para recolher o lixo e depositar no contentor mais próximo, sem imaginar que naquele dia iria carregar consigo um peso que não era apenas físico, mas também emocional.

O feto, enrolado num cobertor aparentemente novo, foi deixado inicialmente em frente de um estabelecimento comercial antes de ser depositado no contentor. “Eu não sabia que era uma criança morta. Pensei que fosse lixo normal, como sempre recolho, mas quando cheguei na lixeira e fui colocar, percebi que era um bebé”, relatou Jorge Tembe, visivelmente abalado.
Este é o segundo caso registado no mesmo local, segundo Tembe, que lamenta a falta de pistas sobre os responsáveis pelo abandono do recém-nascido. “É triste, porque não sabemos quem faz estas coisas. Só encontramos assim, e ninguém aparece para responder”, acrescentou.

Uma outra fonte no local, que preferiu não revelar a sua identidade, classificou o ato como resultado de negligência, apontando principalmente para a falta de responsabilidade de alguns jovens e adolescentes. “Hoje em dia, os métodos anticoncepcionais estão disponíveis nos hospitais e centros de saúde de forma gratuita, mas muitos ignoram e depois acontecem estas coisas”, comentou, lamentando a realidade em que vidas são interrompidas antes mesmo de terem a oportunidade de existir.

A mesma fonte partilhou, em tom emocionado, que está prestes a completar 40 anos de idade, tendo apenas uma filha devido a várias dificuldades que enfrentou, sem detalhar as causas. “É triste ver alguém desperdiçar a vida de um filho, quando há pessoas que passam anos a lutar para ter apenas um”, desabafou.


No bairro de Bagamoio, o sentimento de dor e indignação é partilhado por muitos que, mesmo sem conhecer os autores do ato, sentem a angústia de um bebé que foi privado de viver. 

As autoridades policiais foram accionadas, tendo removido o feto horas depois para dar seguimento aos trabalhos que somente competem a equipa técnica do ServiçoNacionaldeInvestigaçãoCriminal (SERNIC).

Este caso reacende o debate sobre a necessidade de reforçar a educação sexual e reprodutiva nas comunidades, ao mesmo tempo em que questiona o papel da sociedade em acolher e apoiar jovens em situação de vulnerabilidade.

Enquanto isso, a pequena lixeira na rua da Rádio torna-se mais um palco de histórias tristes de vidas que se apagam antes de começar, à espera de respostas que dificilmente chegam e de medidas que possam evitar que o lixo seja, mais uma vez, o destino de uma vida humana.


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